Escrevi esse post no dia dos professores de 2009. Não o publiquei e não publicarei, mas resolvi fazer uma carta sobre algumas coisas que eu penso a respeito dos profissionais, professores e instituições de ensino.

Para quem não sabe, além da minha veia empreendedor, eu sou professor. Ministro aulas desde meados de 1998, entre cursos livres, palestras, workshops, graduação e pós-graduação.

Entre 1997 e 1999 convivi com pessoas iluminadas no PROEM (Programas de Estudos e Pesquisas no Ensino da Matemática), um grupo criado na PUCSP com 4 pilares:

  1. a formação inicial de professores que trabalham com Matemática
  2. a formação continuada de professores em serviço
  3. a pesquisa em ensino de Matemática
  4. a elaboração e difusão de documentos para educadores

E 2 objetivos:

  1. Contribuir para formação inicial e continuada dos professores de Matemática
  2. Prestar serviços à Comunidade

O segundo objetivo - prestar serviços à Comunidade - sempre me incomodou. Mas aquele incômodo bom, do bem, que faz você se mexer e fazer algo melhor, sabe?

Veja bem, sempre dei muito valor para os estudos e pessoas que realmente contribuíram com algo para o ser humano (e não para a sociedade). A cura de uma doença, um novo método para reciclagem eficiente de lixo tóxico, um algoritmo para desenvolver uma prótese mecânica que gere um bem estar maior. Talvez um estudo para entender melhor os efeitos cósmicos em nosso organismo ou no planeta em que vivemos, ou entender o processo evolutivo da natureza e assim prever onde a Terra vai parar com tanta desmatação, e como evitar isso.

Enfim, entenderam o tipo de coisa que estou falando, não?

Eu vejo uma ode, um apelo marketeiro para as coisas mais banais da vida. Ok, ok, faz parte, temos que entender que o mundo é capitalista, e selvagem. Ontem vi uma movimentação, um gasto de energia absurdo para criar piadas em prol da escalação do time do Brasil para a Copa de 2010. Mas não vejo essa energia ser gasta em outras coisas, muito mais importantes e fundamentais para o nosso futuro, e dos nossos filhos, e netos, e etc.

Eu mesmo, faço games. O que um game pode levar de bom para o futuro do planeta?

  • Talvez diminuia o estresse de uma pessoa no final do dia e assim evite problemas cardíacos? Ou permita com que ela não faça nenhuma "besteira" maior?
  • Talvez ensine alguma coisa de uma cultura nativa para uma sociedade / geração cada vez mais "to nem aí para as minhas raízes", como é o caso do jogo Pibmirim, que conta sobre os índios do Brasil?
  • Talvez ajude pessoas com problemas mentais ou acidentados a se esforçar mais e melhorar?
  • Talvez não leve a nada além de simples diversão?

Sobre isso, eu compartilho o que minha colega de profissão, Jane McGonigal, disse em sua palestra no TED: "Jogar pode fazer um mundo melhor".

Basicamente, Jane diz que se conseguíssemos usar a energia e concentração que as pessoas utilizam enquanto jogam, para outros fins mais nobres, muitos problemas do nosso planeta seriam facilmente resolvidos.

Pense a respeito!

Imagine o tempo que você perde criando piadinhas bobas com hashtags, ao invés de responder aquele email importante para um amigo. Lembre do tempo que perdeu tirando sarro daquela senhora velha que leva comida para os animais vira-latas que moram na esquina da sua rua. Pense na energia gasta para preparar alguma gozação com um colega de trabalho, que simplesmente fez ele ficar chateado e com um sorriso amarelo no rosto.

Bom, ninguém é Santo, e muito menos eu. Tenho raiva, inveja, rancor, tristeza e outros defeitos como qualquer pessoa normal. Mas ao menos eu resolvo seguir adiante, tentando solucionar os problemas à minha maneira. Ficar de braços cruzados? Comigo não.

Vamos usar a energia gasta em besteira para coisas do bem! Como os ativistas das bikes, que usam a tag #vadebike no Twitter para divulgar notícias, dicas e tudo o que é relacionado a andar de bicicleta. Isso vai melhorar a sua saúde, o seu humor, ajudar no trânsito da sua cidade e a diminuir a poluição.

Outras diversas iniciativas existem por aí. Procure a que mais te anima, e faça. Just Do It! (isso não é um comercial da Nike)

E onde, teoricamente, essas iniciativas deveriam existir em maior quantidade? Nas universidades, antro dos "seres iluminados" que vizam o conhecimento em prol do homem.

Infelizmente isso não é o espelho da realidade, e a grande maioria (e não todas) das universidades e centros de pesquisa viraram empresas focadas em lucro, meramente. Educação, pra quê? O interesse principal é se tornar cada vez maior, crescendo, comprando faculdades menores, atraindo clientes... ops.... alunos para a sua grade de cursos.

A academia virou uma fábrica moderna, a la "Tempos Modernos" de Chaplin. Uma produção em série de cérebros não-questionadores e de pouca capacidade analítica. Oras, seguir o by-the-book é mais fácil, e o que não está descrito ali fica pra "alguém" resolver.

Quem é esse "alguém", se não estamos formando pessoas que realmente corram atrás da informação? Alunos, acordem!!! Saiam do barzinho e pensem no seu futuro. Você não é um cliente da faculdade, você não paga para pegar o canudo, e sim pra aprender.

Diversos estudos (na área de TI) comprovam que a mão de obra está mudando o seu perfil. Hoje temos muito mais usuários do que criadores, e em pouco menos de 10 anos teremos uma balança totalmente desequilibrada entre as pessoas que criam software, e as pessoas que supostamente deveriam criar. Novamente volto a dizer: as universidades não estão preocupadas com isso, além do valor da matrícula paga.

Outro ponto perigoso é o efeito alavanca, ou trampolim. Muitos professores estão na faculdade não para lecionar, mas sim apenas para rechear seus currículos com um cargo acadêmico, aumentando assim o valo do seu passe no mercado. Professores despreparados na alma, e que consequentemente não vão formar bons profissionais.

Bom, sinto em dizer que desisti da academia. Quando senti na pele a sujeira do mundo corporativo (falando do lado sujo da coisa) na facudade, eu desisti. Apesar de seguir todo o procedimento das regras da universidade descritas no edital para seleção de um professor para o curso "Jogos Digitais", passar por todo o processo seletivo com a entrega de documentos, aula aberta para uma bancada, etc etc etc....  descobri que uma indicação que não passou pelo processo conseguiu a vaga.

Pessoal, não estamos falando de um cargo de confiança executivo, ou de uma empresa. É a academia, local de estudos, aprendizado, formação de novos profissionais em seu caráter, ética e conhecimento. Se a entidade que provê isso não segue os princípios, como participar dela?

Acredito e conheço ainda alguns professores e escolas que seguem a tradição Mestre - Aluno. Não na sua rigidez, mas sim no conceito de aprendizagem. Não quero dar aula para um aluno que não me respeita como professor, ou que nem me dá a chance de mostrar o que eu posso contribuir para a vida dele. Eu acredito que a "evolução" (bah!) da sociedade, das instituições e etc são fundamentais para o crescimento de todos, mas pera aí..... alguns conceitos devem ser mantidos.

Bem.....

Voltando ao PROEM, apenas quero deixar como aprendizado a minha convivência com gênios da Matemática, como os(as) professores(as) Sandra, Vincenzo, Benedito, Ana, Célia, Maria Cecília, Lígia, Ruy, Saddo, Tânia, Scipione, dentre outros. Professores que tinham amor pela ciência, em mostrar de forma fácil os planos da geometria, os universos matemáticos, a beleza dos números. Professores que faziam o que faziam simplesmente pelo ato de ensinar, e ver o conhecimento nascer.

Gostaria, seria um orgulho, uma honra, uma dedicação, uma paixão e uma servidão ter uma cátedra na universidade que me formei e tantos frutos me deu na carreira. Infelizmente, com a máquina $$ da graduação, a relação mestre/aluno se desgastou e pessoas como eu, que geram a estranheza e forçam o bom aprendizado, não são mais bem vindas nas instituições.

Encontrei, nos meus cursos livres, o espaço para passar o conhecimento da forma que acho certo. Cursos livres abraçados por outros profissionais que tem o mesmo ideal, a um valor justo, com uma metodologia própria e eficiente, hoje ministrada pela 8D Cursos. Assim quem sabe, possamos fazer diferença para alguns alunos. ;-)